Ultimamente tenho me deparado com a mesma queixa em diferentes clientes que atendo. Tal queixa está presente desde pessoas com uma história de vida mais violenta até mesmo em pessoas que aparentemente tiveram um bom acolhimento durante a vida: estou falando do sentimento de abandono.

A forma como tal sentimento é descrito também tem se repetido, seria como uma sensação de vazio (esse vazio pode ser sentido até mesmo no peito) e a certeza de que está sozinho diante das dificuldades e das decisões que precisa tomar diante da vida. Além disso, veem a vida de uma forma amarga e pessimista. Mesmo para aqueles que têm alguns amigos e/ou familiares é como se a fala de apoio dos mesmos não fosse o bastante.

Pude observar que um elemento em comum entre tais clientes é uma história de abandono familiar que começa desde a infância. Esse abandono pode se configurar de diferentes modos: desde a não existência dos pais até mesmo a uma presença superficial dos mesmos (por exemplo, apesar da presença física existe uma falta de carinho e/ou de imposição de limites).

Em alguns casos o ambiente escolar ou comunitário também foi marcado por episódios de bullying e consequentemente a falta de espaço e de pessoas para conversarem sobre o ocorrido.

Segundo Winnicott (2000), o desenvolvimento emocional saudável depende essencialmente de um ambiente suficientemente bom. A pessoa responsável por exercer a função materna, vai procurar suprir as necessidades do filho da forma mais adequada através do holding. Este seria a capacidade de empatia, intuição inconsciente e comunicação silenciosa entre uma mãe e seu bebê, propiciando condições ambientais favoráveis ao desenvolvimento (Rotandaro, 2002). Para Winnicott (id.), a mãe permite que a criança se sinta integrada em si mesma e vá adquirindo uma sensação de diferenciação do mundo em que vive, adquirindo uma noção de um ser unitário.

Ao ler-se “mãe” é importante termos em mente que não apenas a mulher tem a responsabilidade de construir uma estrutura de acolhimento para a criança, mas sim as pessoas que são responsáveis pelo seu cuidado.

Levinzon (2000) aborda que crianças que viveram uma situação de maternagem desfavorável, para lidar com os sentimentos de abandono e desproteção, podem desenvolver comportamentos antissociais ou personalidades do tipo “falso self”.

Estruturas de personalidade tipo “falso self” demonstram uma impossibilidade em se mostrar com autenticidade, resultando em uma personalidade empobrecida ou paralisada, causando perturbações da identidade (Winnicott, 2000). Essas crianças procuram ser boazinhas, às custas da repressão de uma parte vital de si mesmas, o que resulta em uma série de dificuldades em suas vidas (Rotandaro, 2002).

Tais dificuldades se desdobram ao longo da vida e assim tais crianças vão se tornando adultos melancólicos e com uma baixa autoestima, tendo uma visão de si mesmo extremamente empobrecida e inferiorizada.

No atendimento psicológico torna-se importante estabelecer um vínculo de cuidado e empatia com tais clientes para que seja possível um ajustamento na forma como se relacionam consigo mesmos, transformando essa visão pessimista e inferiorizada. A partir dessa nova forma do modo como se percebem, será possível construir uma estrutura de auto apoio e cuidado para que posteriormente seja possível voltar-se para as suas relações com o mundo de uma forma mais construtiva.

 

REFEREÊNCIAS:

Levinzon.G.K. A criança adotiva na psicoterapia psicanalítica. São Paulo, Editora Escuta, 2000.

Rotandaro.D.P. Os desafios constantes de uma psicóloga em um abrigo. Psicol. cienc. prof. vol.22. nº3. Brasília, Sept. 2002.

Winnicott.D.W. Da Pediatria à Psicanálise. Rio de Janeiro, Editora Imago, 2000.

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